Aos ecossocialistas – companheiros, protetores de animais e ambientalistas
Dizem as más línguas que os mineiros se sentem profundamente humilhados porque Minas não tem mar.
São Paulo tem mar. Bahia tem mar. Paraíba tem mar. E o Rio, claro, tem mar! Até Mato Grosso tem um mar Pantanal. E as terras amazônicas têm mares infinitos e robustos que, além de tudo, são formados por água doce. O navegador espanhol Vicente Pinzón, que comandava a caravela Niña na expedição de Colombo, chamou o Rio Amazonas de “Mar Dulce”.
Pois é... E Minas, coitadinha, não tem mar...
Minas tem minério, principalmente o ferro. Grande parte desse ferro está localizado no chamado Quadrilátero Ferrífero que abarca 25 cidades da Região Metropolitana de BH:
Bom Jesus do Amparo, São Gonçalo do Rio Abaixo, Barão de Cocais, Santa Bárbara, Catas Altas, Alvinópolis, Mariana, Ouro Preto, Ouro Branco, Congonhas, Jeceaba, Belo Vale, Moeda, Itabirito, Rio Acima, Brumadinho, Mario Campos, Sarzedo, Ibirité, Nova Lima, Raposos, Sabará, Caeté, Belo Horizonte, Santa Luzia. O Quadrilátero Ferrífero tem uma área de aproximadamente 7000 km2 e se localiza entre Ouro Preto, a sudeste, e Belo Horizonte, a noroeste, compondo a parte sul da Serra do Espinhaço.
É preciso, contudo, observar que o minério de ferro tem uma particularidade – trata-se de uma pedra porosa que, como uma esponja, vai absorvendo as águas das chuvas que caem na superfície da terra e descem, lentamente, às vezes gota a gota, acumulando-se no subsolo e formando enormes lagoas sob a terra. Portanto, debaixo das formações geológicas do Quadrilátero Ferrífero estão escondidas as águas de um Quadrilátero Aquífero: um verdadeiro mar de água doce. Essa imensa bacia subterrânea, presente debaixo do território das cidades acima citadas, brota em nascentes e vaza em córregos que vão se juntando e formando os grandes rios de nosso Estado.
Um dos mais importantes rios de Minas e do Brasil é o Rio das Velhas, que fornece 70% das águas que abastecem BH e sua Região Metropolitana. Seu nome provém do tupi-guarani Uaimií (Rio das Velhas) que se aportuguesou como Guaicuy e finalmente Rio das Velhas. Esse importante curso d’água percorre 51 municípios mineiros até se encontrar com o São Francisco, em Várzea da Palma, no distrito de Barra do Guaicuí.
O território de Minas é todo assim: atravessado por nascentes, córregos, rios, veredas, brejos. Nossos principais rios (S. Francisco, Paranaíba, Jequitinhonha, das Velhas, Grande, Verde Grande, Araguari, Paraopeba e Paracatu) nascem nas terras altas de Minas, a partir das lagoas subterrâneas que, vazando e descendo a patamares mais baixos, vão se encontrando e encorpando até encontrar o Oceano Atlântico pela foz do Velho Chico.
Ou seja, as águas doces de Minas ajudam a compor as águas fundas do mar.
Hoje, dia 24, último domingo de setembro, é o Dia Mundial dos Rios. E aqui, em Contagem, a “cidade das nascentes”, comemoramos nossos muitos mares não convencionais: quadriláteros, longilíneos, localizados no topo das serras, debaixo do ferro, cobras de água serpenteando pelo terreno pedregoso do Cerrado, viveiro de nascentes borbulhando nas veredas, sussurro de gotas nas cavernas de Luzias.
Minas e seus rios. Nossas vidas. Nossos mares.